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segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Seca: “O Gargalheiras é um símbolo”


O açude Gargalheiras seco é uma imagem que, aos 87 anos de idade, o advogado seridoense Manoel de Brito não imaginou nem esperava ver um dia. “O Gargalheiras é um símbolo para a população do Seridó, principalmente para o povo de Acari e Currais Novos”, atesta ele. Nascido na região, em Jardim do Seridó, Manoel de Brito lembra que a construção da barragem, oficialmente batizada com o nome do marechal  Dutra, foi também uma longa espera para o Rio Grande do Norte. As obras começaram em 1921, no governo do presidente Epitácio Pessoa (o governador era Ferreira Chaves), mas foram logo paralisadas, ficando máquinas e instalações abandonadas. “A estrada velha de Jardim para Acari passava por ali e eu via aquele maquinário todo sendo comido pela ferrugem”, acrescenta.  Em 1949, já rapaz e repórter do jornal A República, Manoel de Brito estava presente quando o presidente Eurico Gaspar Dutra visitou o estado e ouviu de Dom Marcolino Dantas, bispo de Natal, o apelo em forma de trocadilho; “Presidente, mande construir o Gargalheiras para quando houver inverno as aguas gargalharem”.Júnior Santos
Aos 87 anos de idade, o advogado seridoense Manoel de Brito fala do sofrimento que o sertanejo passa por falta de iniciativa dos governos em tirar do papel obras estruturantes de combate à seca
Aos 87 anos de idade, o advogado seridoense Manoel de Brito fala do sofrimento que o sertanejo passa por falta de iniciativa dos governos em tirar do papel obras estruturantes de combate à seca

ndo sobre a imponente parede de 25 metros de altura da barragem, formam uma queda em cascata conhecida como “véu de noiva”. Após cinco anos de uma nova seca, as pedras do leito do rio Acauã – integrante da bacia do Piranhas/Açu – estão à mostra. Quando o Gargalheiras voltará a gargalhar? Nem mesmo Manoel de Brito, que já foi secretário de Interior e Justiça por  duas vezes, na década de 1970/1980, e enfrentou mais de uma seca prolongada, arrisca uma previsão. Para ele, o Gargalheiras seco e a falta d´agua no semiárido nordestino, neste século, também são símbolos da falta de cuidados com a região e prioridades certas nas políticas dos últimos governos.   

O senhor esperava ver o Gargalheiras seco?
Não! É a primeira vez que tenho o desprazer de ver o Gargalheiras sem água. Eu sempre passo no Acari, quando vou para minha terra – Jardim do Seridó – e sempre fui ver aquela paisagem do Gargalheiras, o açude construído entre as duas serras. A situação, hoje, da população do Seridó e também de todo o Nordeste é de um padecimento sem igual. Digo isso porque nasci em 1928. Meus país tinham um hotel, em Jardim do Seridó, e aos três anos de idade  eu já tinha noção do que era uma seca. Em lembro dos meus pais, em 1931, reclamando que não havia água para beber, que os açudes tinham secado, e que um cidadão chamado José Américo de Almeida, o então ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Getúlio Vargas, tinha dado início a construção de um açude público em Caicó para garantir futuramente atender a demanda d´agua. Foi o Itans! A partir dai, eu soube o que era uma seca. Mesmo criança, eu entendia a preocupação dos adultos da comunidade em que eu vivia. Depois, já adulto e iniciado na vida pública, eu tive oportunidade de atuar para diminuir os efeitos das secas para a população do interior.
Cedida
Construção do GargalheirasConstrução do Gargalheiras
Na seca de 1979 a 1984 o senhor era secretário estadual de Interior e Justiça. Como foi aquela seca? Qual a diferença para a seca atual?
A diferença é que naquele longo período de estiagem, foram cinco anos como agora, o governo do Rio Grande do Norte e dos outros estados nordestinos contaram com o patrocínio do ministro Mario Andreazza. Esse homem foi um benfeitor do Nordeste. Não só pelo apoio que eles deu aos governadores, dotando os estados de todas as condições indispensáveis para acudir as populações atingidas pela estiagem, seja com o fornecimento dos recursos para termos caminhões pipas, seja com obras para ocupar o agricultor que ficou sem lavoura. Ele mandou a Sudene transferir equipamentos para os estados e graça a ele nós atravessamos aquele período sem maiores sobressaltos nem humilhações. 

Naquele período, inclusive, ocorreu um fato inusitado para uma seca. Caiu uma tromba d´agua em Campo Grande que arrombou o açude e foi levando outros pela frente. Terminou que essa água destruiu uma rua em Santa Cruz e foi parar no açude Trairi. O ministro Andreazza veio aqui e fomos visitar com o governador Lavoisier Maia o local atingido. Chegando lá, o ministro se emocionou ao ver a situação, as águas lavando a parede do açude Trairi, na eminência de arrombar. O açude resistiu, o que atestou a decência e eficiência do DNOCS, quando construiu o açude.

O senhor considera que, em comparação a atuação do governo federal naqueles anos das décadas de 70 e 80, o atual não dá a atenção devida à crise provocada pela seca nos estados nordestinos?
Com a advento do governo do Partido dos Trabalhadores essa preocupação não existe mais. Eles deram essa esmola do Bolsa família e não se sensibilizam com o sofrimento e a realidade do nordestino. Eles acham que mandando esse dinheiro das bolsas, para atender às famílias, já estão fazendo tudo. Agora, o que fizeram foi criar um bando de desocupados porque, no interior, quem recebe essas bolsas não quer mais trabalhar. Por outro lado, o governo do estado e as prefeituras não recebem um centavo para atuar e acudir à população atingida pela seca. Eu lamento muito a situação  do governador Robinson Faria, que está sem recursos suficientes para atuar nessa situação da seca. Veja, só para atender as regiões do Seridó e do Mato Grande se fala que serão necessários R$ 30 milhões para os carros pipas. Na época da seca de 79, durante o governo Lavoisier Maia, o governo federal acudiu o estado sem deixar faltar os recursos necessários. Jobel Araújo
Gargalheiras em 2011Gargalheiras em 2011
Faltaram as obras estruturantes para o Nordeste?
Sim! As últimas obras estruturantes para o Nordeste enfrentar as secas, que é um fenômeno previsível, datam dos governos anteriores a Lula e a Dilma. Até mesmo no governo de Fernando Henrique Cardoso ele fez alguma coisa e deu aos estados condições de atuar contra a seca.

O projeto de transposição de águas do rio São Francisco para outras áreas do Nordeste, retomado há mais de 15 anos, começa a funcionar. Teve a inauguração da estação de bombeamento em Cabrobó. Mas, no Rio Grande do Norte nenhuma obra foi feita para receber a transposição. O senhor acredita que ela vai chegar aqui e será uma solução para a seca?
Eu não acredito. Por duas razões: primeiro, porque as obras estão andando a passo de cagado; segundo, porque a situação da crise hídrica no Nordeste é muito mais grave. O rio São Francisco também está sofrendo com a estiagem, inclusive em suas nascentes. Na Bahia, há trechos do São Francisco que não são mais navegáveis, devido ao nível d´agua está baixíssimo. Será que, ligadas todas as estações de bombeamento, teremos vazão para abastecer todos os canais planejados? Talvez, a primeira providência fosse trazer água do Tocantis e do Araguaia, que são rios caudalosos e sem problemas de estiagem, para garantir o São Francisco.
Moraes Neto
Gargalheiras em 2015Gargalheiras em 2015
Porque falta interesse político dos governos. Falta investir em tecnologias de convivência com a seca e falta noção de prioridades para o governo. Veja só: o sujeito ter uma casa própria é muito bom, tá tudo muito bem ajudar ele a conseguir isso. Desde o governo de Getúlio Vargas que se tem o estímulo para a construção de casas populares. Foi ele que começou com os programas de habitação popular. Mas, é muito mais importante, aqui no Nordeste, garantir a água que as casas populares. O governo centraliza, de forma demagógica, os recursos no programa Minha Casa, Minha Vida, de uma forma eleitoreira, em detrimento de outras projetos e iniciativas que poderiam minorar o problemas da estiagem e levar o Nordeste a se desenvolver. Talvez, como o problema da falta d´agua está chegando ao Sul do país, a gente está vendo São Paulo, Minas Gerais e o Rio de Janeiro, as voltas com uma crise no abastecimento, pode ser que esse pensamento venha a mudar. 

A partir dessas análises que o senhor faz e da sua experiência, que atuação o senhor aponta para o poder público?
A solução, neste momento, para a crise do abastecimento é o governo tentar incentivar, promover e construir uma rede de poços. Precisamos começar a usar os recursos d´agua do subsolo. Aqui no  Rio Grande do Norte, tem lençóis freáticos que podem ser usados. Em algumas áreas mais do que outras, mas tem. Não vejo outra solução, emergencial, que não seja essa. A eficiência está comprovada pela história. Eu vi o desempenho, na região do Mato Grande, de um homem chamado João Severiano da Câmara. Naquela região, sem grandes reservatórios d´agua, há 70 anos atrás, ele incentivou e deu provimento para a instalação de poços tubulares em todo o Mato Grande. Isso garantiu a produção, o abastecimento e minimizou os efeitos da estiagem na região. E é isso que precisa ser feito em todo o Estado, emergencialmente.

Tribuna do Norte

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