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domingo, 24 de maio de 2015

“Os reflexos da crise são visíveis, mas vamos reagir”


O presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte  e do Conselho Nacional de Micro e Pequena Empresa da Confederação Nacional da Indústria (Compem/CNI), Amaro Sales, se considera um “otimista por convicção e natureza”. Em meio a um momento de retração da economia e efeitos colaterais afetando diversas atividades, porém, ele estima dificuldades no horizonte, mas projeta também capacidade de reação e que há possibilidade de melhorias do cenário mais cedo do que se espera. Nesta entrevista, Sales analisa o momento, fala sobre o programa Mais RN, que mapeia oportunidades para o estado, e explica o que o setor tem a comemorar no Dia da Indústria, celebrado amanhã, dia 25.Emanuel Amaral
Amaro Sales enxerga dificuldades na economia ainda em 2016, mas aponta a chance de reversão de cenário mais cedo do que se esperaAmaro Sales enxerga dificuldades na economia ainda em 2016, mas aponta a chance de reversão de cenário mais cedo do que se espera

Como o senhor analisa o atual cenário para o setor industrial no RN diante da crise que começa a afetar vários setores econômicos do País?
Muito preocupante! Um indicador preocupante é o desemprego. No primeiro trimestre a indústria foi obrigada a dispensar 3.769 pessoas. Aliás, como já foi noticiado, o Rio Grande do Norte apresentou a pior performance nacional no que se refere a taxa de desemprego em atividades formais e informais no primeiro trimestre do ano. De acordo com a PNAD Contínua, do IBGE, a taxa de desocupação potiguar (em atividades formais e informais) das pessoas de 14 anos ou mais de idade no período janeiro-março correspondeu a 11,5% (ante 7,9% nacional e 9,6% do Nordeste). Um outro indicador que acompanhamos é o consumo de energia pelas indústrias. No primeiro trimestre de 2015 houve um recuo, em relação ao mesmo período de 2014, de -2,3%. São visíveis, portanto, os reflexos da crise nacional no Rio Grande do Norte, acrescidas das graves consequências do quarto ano de uma severa estiagem. O estoque de notícias ruins está muito alto no atual momento. Mas, os empreendedores – que são verdadeiros heróis da resistência – não se entregaram. Vamos reagir! A sociedade precisa nos apoiar; os órgãos de fiscalização, controle e regulação precisam entender o momento atual; a luta, diante da crise, é de todos nós!

Quais as cadeias produtivas estão sendo mais afetadas? Há algum setor que consegue se manter sem sequelas dessa crise?
Todas estão afetados. O aumento da energia, dos combustíveis e a elevação dos custos de produção são fatores que alcançam todos os empreendedores. Mas, em especial, estamos percebendo cenários mais graves com crises setoriais, ou seja, uma crise dentro da crise, para a construção civil, sobretudo os que planejaram seus negócios a partir da palavra do Governo Federal em torno do Programa Minha Casa, Minha Vida e, ainda, o agronegócio e a mineração, pela seca perversa; os prestadores de serviços da PETROBRAS e o setor têxtil que, pelo chamado custo Brasil, estão, cada vez mais, perdendo competitividade na disputa de mercado com empresas do exterior. Existe uma exceção. A indústria do vestuário, às que são fornecedoras de serviços para o Grupo Riachuelo e para outras marcas nacionais, estão sofrendo menos com o atual momento. A boa notícia em relação ao resultado da Rede Riachuelo no primeiro trimestre de 2015 foi animadora. E o Grupo Riachuelo, neste cenário de seca e crise, continua prestigiando – com compra de serviços - a pequena indústria do interior potiguar. São diversos municípios do Rio Grande do Norte que hoje já são impactados positivamente pela atuação das indústrias do vestuário, modalidade facção. Precisamos avançar neste caminho. É uma atividade formal, com intensa ocupação de pessoal, que traz dividendos sociais e econômicos significativos para o Estado do Rio Grande do Norte. É um caminho que deve ser apoiado por todos para atravessarmos este grave momento – de seca e crise – no Rio Grande do Norte.

O senhor acha que esse período difícil vai se estender por um longo tempo?
Sou otimista por convicção e natureza! Mas, mesmo com otimismo, acredito que 2016 já está contagiado com os efeitos da crise de 2015. Aliás, creio que somente em 2017, realmente, vamos ter notícias melhores. Mas, se o Governo Federal aprovar os ajustes e fizer o dever de casa ampliando os cortes e gerando possibilidades de investimentos públicos e privados, a luz no final do túnel pode surgir mais cedo. Não sei se a Presidente Dilma vai nos ouvir, mas, se ouvir os empreendedores, cortaria cargos, centros de despesas ineficientes, faria um grande ajuste com os demais Poderes em relação a Orçamentos e, sobretudo, anunciaria uma agenda efetivamente positiva com novos investimentos públicos e estímulos à iniciativa privada. O Brasil precisa acreditar e apoiar seus empreendedores. Não há outra saída! Quem suporta o aparelho estatal é a produção de bens e serviços com o consequente consumo que gera impostos e taxas. Se o empreendedor não for apoiado, o aparelho estatal – como já se sente – em pouco tempo estará totalmente sucateado e sem resolutividade.

Em que o poder público pode ajudar o setor? Essa ajuda está chegando?
Não atrapalhando, já ajudará! Precisamos criar um ambiente destravado e de estímulos ao empreendedor. O que se percebe, em síntese, é uma legislação que burocratiza as relações de mercado e pune o empreendedor. Qualquer transgressão, muitas vezes involuntária, motiva multas elevadíssimas. O empreendedor muitas vezes é levado à página policial simplesmente porque foi iniciada uma investigação sobre um ou outro aspecto de sua vida empresarial. Ao que parece as metas de alguns órgãos públicos são avaliadas pelo número de multas e autuações. Porque não invertemos a lógica, ou seja, quantas empresas foram orientadas, ajudadas, fortalecidas pela atuação dos órgãos públicos? Ademais, quantas sentenças judiciais e quantas investigações no Ministério Público reconhecem as dificuldades – de crise e seca – com as quais estamos hoje lidando? E o Poder Legislativo, em todos os níveis, porque não direciona o seu esforço no sentido de retirar amarras, estimular o ambiente de negócios, corrigir distorções que travam o investimento privado? O empreendedor, cujo desabafo transmito, deseja ser respeitado, ouvido e estimulado a gerar desenvolvimento em um País que, de fato, valorize a iniciativa privada, aplauda o lucro legal e que não puna quem gere emprego, respeite o meio ambiente e faça a renda circular a favor do desenvolvimento econômico e social.

O 'Mais RN' é um projeto que aponta as potencialidades e oportunidades para investimentos no Estado... O que mais impede essas potencialidades se transformarem em produção?
O Mais RN aponta caminho, sugere metas, projetos e indicadores de monitoramento. O Rio Grande do Norte é um Estado pequeno, contudo, com uma matriz econômica diversificada e várias possibilidades de grandes investimentos. Já conversamos sobre a conjuntura geral de travamento e a ausência de estímulo o que, de fato, são temas nacionais, mas, por justiça, devo registrar o esforço e a postura de diálogo do Governador Robinson Faria em relação aos projetos que estamos discutindo no âmbito do Mais RN e acredito que, com a conclusão da próxima etapa, contando com o apoio também dos demais Poderes, faremos novas investidas, com um roteiro bem definido em mãos, para que os investimentos nas potencialidades do Rio Grande do Norte ocorram em menor prazo e com maior perenidade.

Como o senhor classifica o empresário da indústria no RN? São empreendedores?
Não apenas empreendedores, são heróis e, como digo reiteradamente, heróis da resistência. Alguns não entendem, mas o empreendedor começa todos os dias com obrigações gigantescas em relação ao pagamento da folha, encargos de seus colaboradores; impostos e taxas; relações negociais, etc. São muitas famílias que dependem do esforço, da articulação e da estratégia do empreendedor. No final do mês, a folha de pessoal precisa ser paga e ninguém vem lhe perguntar o que está faltando. São heróis que enfrentam crises, incompreensões, fenômenos climáticos, juros altos, turbulências de mercado. São heróis que resistem e mantem suas portas abertas, transformando empresas em células vivas da economia e do desenvolvimento. 

O que o setor tem a comemorar no Dia da Indústria deste ano?
Mesmo em um cenário tão difícil há sempre o que celebrar. O diálogo com o Governo do Estado, por exemplo, tem nos dado muitas esperanças. Algumas iniciativas de inovação, pesquisa, uso das energias renováveis na produção industrial são fatos relevantes que também nos animam. Ademais, quem conhece e acompanha a vida de empresários industriais experientes como Francisco Souto, Thiago Gadelha, Antonio Tavares, Assis Medeiros, Marinho Herculano, Nevaldo Rocha, Antonio Leite Jales, Pedro Alcântara, Flávio Azevedo, Fernando Bezerra e tantos outros que, mesmo alcançando o sucesso e a maturidade, trabalham diariamente em seus empreendimentos, sabe que o desafio é diário e a missão de superação, em favor do melhor produto e da aceitação no mercado, é uma grande satisfação pessoal.

Tribuna do Norte

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