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domingo, 26 de abril de 2015

“Não há crise e, sim, um momento de adequação”


À frente da Federação da Câmara de Dirigentes Lojistas do Rio Grande do Norte há quatro meses, o empresário Afrânio Miranda analisa a retração nas vendas e consumo, mas descarta a situação de crise econômica e alerta para a necessidade das empresas se adequarem. O setor deve registrar queda no faturamento de 5% ao ano. Em entrevista à TRIBUNA DO NORTE, o empresário analisou situações de inadimplência, baixa no consumo e no fluxo de pessoas no comércio, além de defender campanhas de redução de compras eletrônicas para incentivar o recolhimento de impostos e geração de emprego local, como forma de enfrentar o momento de retração da economia. “Por mês, R$ 40 milhões em impostos deixam de ser recolhidos e revertidos em investimentos no estado”, observa. Eis a entrevista.Humberto Sales
Afrânio Miranda, presidente da Federação da Câmara de Dirigentes Lojistas do Rio Grande do Norte (FCDL RN)
Afrânio Miranda, presidente da Federação da Câmara de Dirigentes Lojistas do Rio Grande do Norte (FCDL RN)

Nesta conjuntura de crise econômica, com crescimento de inflação, alta dos juros, quais as perspectiva para o setor de comércio e serviços este ano, na avaliação do senhor?
Eu não acredito que estamos numa crise.

Não?
Não. Eu diria que estamos numa situação em que cada empresa precisa fazer ajustes porque está faturando menos. Crise é quando não podemos resolver. A população não acredita mais no governo, por essa instabilidade  toda, pela falta de segurança jurídica, por não conseguir dar a qualidade que o consumidor espera. Então, o consumidor tende a se resguardar e o comércio varejista e serviços deixa de vender mais. e precisa adequar os custos.

O senhor acredita que a retração é reversível? 
Acredito que pode ser revertida e poderemos voltar a crescer a partir do segundo semestre e retomar a normalidade. 

Com base em que esta retomada?
Na reação que o comércio vem apresentando já nos meses de março e abril. Esperamos que no decorrer do ano, com as atividades de consumo voltando, com escolas, fardamento, material, uma coisa puxa a outra. E não há uma crise com a inflação nos patamares da década de 1980, quando se atingiu 90% ao mês. hoje, a inflação deve chegar a 8% ou 10% ao ano.

E a inflação nesse patamar não afeta o setor e reflete em freio no consumo?

Reflete.

Como medidas de contenção desta inflação, há o aumento das taxas básicas de juros. Qual o impacto disso no consumo?
Com certeza também freia, porque quem vai tomar dinheiro emprestado vai ter mais cautela porque terá juros mais alto. Fora que os bancos passam a ser mais restritivos, rigorosos nessa concessão de crédito. Todos os setores sentem isso. A fábrica deixa de produzir porque o comércio não vende, os serviços também deixam de comprar algum insumo ou incremento para se manter prestando o serviço. Mas acontece que ninguém está habituado a redução no faturamento. Mas não há crise e, sim, um momento de adequação. Voltando a crescer, volta-se a contratar, a normalidade.

O setor do comércio no Rio Grande do Norte registra queda no faturamento em quanto?
Eu acredito que deve ficar na casa de 3% a 5% ao ano, a queda no faturamento do setor. se considerar a inflação, deve ficar em torno de 10 a 12%, com base em dados da CNC e da CNDL.

Quais os setores mais afetados? E os que devem sentir menor impacto?
Todos os setores estão afetados. Acredito que o setor de informática, tecnologia, eletroeletrônicos que podem aguardar, devem sofrer mais com esta cautela do consumidor. Já os que comercializam bens e serviços ditos de primeira necessidade, como os supermercados, vestuário e comércio, sintam um pouco menos esta retração porque não se deixa de consumir.

Dados do SPC Brasil mostram que a recuperação de crédito fecha o primeiro trimestre em queda de 2,30%, puxados pela desaceleração da economia, inflação e alta nas taxas de juros. Como está a inadimplência e o endividamento do setor no Estado?
Não temos ainda como mensurar esta inadimplência em percentual. Mas é certo cresceu e há uma dificuldade de muitas pessoas em quitar as dívidas, algumas porque ficaram desempregadas. Mas acredito que esta é uma situação temporária, que assim que consigam se recolocar no mercado, novos postos de trabalho, estes índices melhorarão. É uma cadeia quando comércio e serviços sentem isso, que são os primeiros, a indústria é afetada, ficar com produto parado, há demissões em massa como já vemos, principalmente no Sul e Sudeste do país. Aqui no Estado, já são mais de 5 mil vagas de emprego fechadas, nos três primeiros meses. E, nesse momento de retração da economia, estes ajustes também passam pelo corte de pessoal.

O fluxo de consumidores no varejo caiu 8% no último mês,  em todo o país, segundo dados da SBVC. Aqui como se comportou, também se percebe um esvaziamento nas lojas e comércio de rua?
Sim, geralmente seguimos esta média. E dependendo da localização, a redução varia de 10% a 15%. Se não há dinheiro sobrando na praça e nem expectativa, há uma cautela na hora de gastar pela instabilidade do Brasil. Há uma instabilidade grande para os empresários com mudanças na legislação, seja com esta questão da legislação  dos atestado, em que agora o empresário terá que, para tapar o rombo da previdência, arcar com em vez de 15 dias de licenças com o custo de até 30 dias desta licença. A gente já recolhe o INSS, o colaborador também. Ou ainda, com a mudança na lei da desoneração da folha, que para alguns setores pode representar um aumento de até 150% em que era cobrado.
 
Qual o impacto da mudança na lei da desoneração para o setor do comércio?
Para algumas atividades do comércio não teve impacto negativo. Mas para a indústria foi um tiro mortal. Mas imagine para quem tinha um planejamento anual dos custos e, de uma hora para outra, em vez de pagar 2% do seu faturamento vai pagar 4,5%. Outro fator que prejudica o comércio são os feriados que, segundo dados da CNC, só este ano deverão trazer prejuízos na ordem de R$ 5 bilhões em todo o país.

Quais as projeções para as vendas do dia das mães?
A pesquisa com todos os números e projeções será divulgada nesta terça-feira. O que podemos antecipar é que esperamos ter um desempenho semelhante ao de 2014, o que já será positivo. O valor do ticket médio de compra também não deverá sofrer redução, já que é um momento em que os filhos investem no presente, mas teremos menos pessoas comprando este ano.

Para reverter esta retração do consumo, quais as estratégias defendidas pela FCDL? 
Uma das bandeiras da FCDL é enfrentar a concorrência do comércio eletrônica. Estamos com uma campanha educativa que pretendemos levar para o Governo do Estado, que é de incentivar a redução das compras por internet, apesar de as vezes o preço ser mais vantajoso em alguns casos. Quando se compra fora, é emprego que deixa de ser gerado aqui e os impostos não vem para  cá, mas ficam para o estado de origem do produto. O Estado perde cerca de R$ 40 milhões mensais em impostos por compras efetuadas fora do Estado. Se todo este recurso tivesse ficado aqui teria mais dinheiro para investimentos em diversas áreas. A legislação de tributação eletrônica  é perversa para nós., já que cada estado atua com um benefício fiscal diferente. Um estudo da Fiern, o programa MaisRN, apontou que temos o menor benefício fiscal do país. Há uma lei que altera os percentuais de recolhimento de compras eletrônicas, de forma escalonada para que até 2019, 100% do imposto seja recolhido no destino. Mas mesmo com a lei, há uma perda na geração de emprego. Paralelo a isso, estamos com uma proposta para incentivar que os pregões sejam presenciais e não eletrônicos, para favorecer as empresas locais.

Estas são as duas principais bandeiras da FCDL?
Sim. E estamos implantando junto com as 29 CDL, nos municípios em que estão localizadas, projeto de câmeras de monitoramento eletrônico e instalação de um mini-Ciosp à exemplo do que já fizemos em Apodi, um investimento de R$ 80 mil, por meio de parceria com empresários, comércio, bancos e prefeitura, em 7 câmeras que j[a refletem em redução da criminalidade.

Tribuna do Norte

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