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domingo, 14 de dezembro de 2014

“Este ano foi difícil para bares e restaurantes e 2015 será tenso”


O setor de bares e restaurantes deverá encerrar o ano com resultados negativos no Rio Grande do Norte, consequência do período de Copa do Mundo – que reduziu em até 30% o movimento em alguns estabelecimentos – mas também sob efeito da concorrência com negócios informais. A avaliação é do presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no estado (Abrasel RN), Max Fonseca. “Foi um ano duplamente difícil e 2015 também será um ano tenso”, diz. Nesta entrevista, ele analisa o momento do setor, explica os efeitos esperados com a alta do dólar no mercado local e aponta desafios para reanimar a atividade. Confira a entrevista:Joana Lima
Max Fonseca - presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no RN (Abrasel)Max Fonseca - presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes no RN (Abrasel)
Como foi 2014 para o setor de bares e restaurantes? 
Foi um ano duplamente difícil. Primeiro, porque se esperava algum crescimento, alguma retomada, do nosso setor que já vinha sofrendo nos anos anteriores. Segundo, porque foi criada uma grande expectativa em torno da Copa do Mundo de que teríamos um ano maravilhoso. Se pensou que teríamos um pico de movimento durante a Copa, mas que se estenderia, porque haveria uma euforia do turismo internacional com o Brasil. Isso, não aconteceu. E não foi só em Natal, foi em todas as 12 cidades-sedes. Com raras exceções, somente naqueles locais concentrados, não houve esse movimento. No geral, ocorreu uma retração fortíssima durante o período da Copa, com alguns locais registrando até 30% de quedas no movimento.

E como vocês fecham o ano? Será de queda mesmo?
Olha, tem gente que acha engraçado o jeito que eu falo, mas a verdade é que vamos fechar com “crescimento negativo”. Isso é uma forma otimista de ver as coisas. Crescimento negativo seria menos um, menos dois … Não foi um ano bom, mas vamos ser otimistas. Se especula, já que ninguém fechou o ano ainda, mas já estamos pertinho e vamos ter até 20% de queda. Queda mesmo. E agravada a partir do segundo semestre do ano.

E o que levou a isso tudo? Foi só a questão macro econômica
Tem uma série de fatores que influenciam. Tem a retração econômica, mas também tem o recrudescimento da Lei Seca, tem a questão da insegurança, a inflação... Só esses fatores já influenciam bastante. Nós somos, no rol de despesas das pessoas, os primeiros a serem cortados. Ninguém pode deixar de pagar a escola, de botar gasolina no carro, de se vestir … mas, pode deixar de tomar a cerveja, de comer fora de casa. Então, onde estoura? Estoura no lazer. E bares e restaurantes são a primeira opção de lazer que é cortada. Além disso, nossos custos continuaram a subir. 

Quais custos?
Veja dois aspectos, quanto a isso, que eu considero fortes, significativos. Desde o início do primeiro governo Lula, ou seja, há 12 anos, o custo da mão de obra cresce acima da inflação. E tem os insumos que cresceram mais. Este ano, a cerveja teve 100% de reajuste nos preços dos fornecedores. É uma coisa inexplicável. Como é que estamos em um país que tem uma inflação controlada, em torno de 6,5%, e um produto cresce 100%? E a gente sabe que outros produtos, de primeira necessidade, estão em situação parecida. A carne, material de limpeza... Isso para dizer que estamos com uma margem de trabalho cada vez menor. Alguns analistas estimam que o setor de bares e restaurantes terá queda na lucratividade de 50%, em relação a 2013.

E esse cenário muda para 2015? Vocês tem perspectiva de melhoras?
Bom! Todas as notícias que já tínhamos é que, independente dos resultados das eleições passadas, ganhando a Oposição ou o governo, o ano não será fácil. Dentro de uma perspectiva mais próxima, em relação ao verão, o que se espera é que podemos ter uma melhoria, em função da alta do dólar. Conversei há poucos dias com empresas emissoras e elas me disseram que a procura do turista brasileiro por viagens ao exterior está muito baixa. Então, a opção pode ser eles viajarem por aqui mesmo, especialmente aqui para o Nordeste. Isso para o verão, mas em relação a 2015, no geral, não temos muitas expectativas. Será um ano muito tenso. Não há nenhum indicador, nenhum sinal na economia, que haverá alguma mudança.

Você falou no verão, mas tem também as festas de fim de ano. Elas não animam o setor?
Olha, todos esses períodos de exceção, acabam trazendo uma situação não comum a todos. As grandes casas tradicionais, por exemplo, tem incremento nas vendas. Os menores, acabam perdendo. Porque as pessoas tem muitas confraternizações para irem, tem despesas com presentes, e acaba havendo retração. Além disso, esse não é um período bom para o turismo em Natal, apesar da cidade ter tido um dezembro muito bacana no ano passado e este, apesar de ter começado tímido, está se mostrando promissor. Mas, no geral não muda muito o quadro geral. Em relação a dezembro de 2013, devemos ter um relação discreto, mas não passará de 5% e se essas ultimas semanas registrarem o que vinha se desenhando no início do mês.

Isso vai afetar, ou já afetou, as contratações temporárias no setor?
Claro. Não vamos contratar como contratamos nos anos anteriores. O mercado tá fraco. Ontem mesmo, conversando com um dono de estabelecimento, ele me disse que no ano passado tinha cerca de 48 funcionários. Este ano, ele está com 27 funcionários e não vai contratar temporários. O que a gente tem visto são reposições de gente que está saindo do mercado, mas não novas contratações. E tem outro aspecto que está ocorrendo e não é só em Natal. É a informalidade. Isso está minando cada vez mais o nosso setor. Aqui isso está extremamente grave, porque a gente vê por parte da gestão pública, tanto municipal quanto estadual, um certo incentivo a informalidade. A informalidade dos negócios é uma penalidade ao empreendedor. Isso é uma coisa que tem desregulado o setor e pode até levar a um colapso. Aqui em Natal e na Grande Natal, a informalidade está corroendo o setor.

Quando você fala em informalidade você está incluindo todos, ambulantes e os food trucks que estão surgindo como uma nova tendência no setor?
Todos. Estou falando de todos. Mas, aqui, os food trucks ainda são irrelevantes. Por enquanto. A gente sabe que no Brasil somos campeãs em boa legislação, em todos os setores, só que não são cumpridas. Então, se existe a legislação, vender deveria ser uma atividade tributada. Nem que fosse pirulito ali na esquina. Agora, uma boa ideia que eu vi, sobre os food trucks, é que já há um projeto na Câmara regularizando eles, mas não só os food trucks, regularizando o comércio de bebidas e comidas nas ruas. Isso é interessante, se ela for aprovada e implementada. Eu não quero vantagem nenhuma para o meu associado. O que nós queremos é paridade. Nós não podemos colocar uma mesa na calçada, mas o cara vai é tem um estabelecimento comercial na rua. A calçada é o salão dele. Isso é concorrência desleal. Ele não paga aluguel, IPTU, taxa de localização, nem contrata os empregados de forma legal, não está sujeito as regras da Covisa... Ele pode praticar um preço menor e, no fim das contas, a gente sabe que o consumidor vai buscar o melhor preço.

Essas obrigações legais acabam representando quanto dos custos de quem está legalizado?
Ah! Essa diferença, levando assim por baixo, chega a 20%. Hoje, trabalhamos em nosso setor com uma margem de l0%. Se você tem a possibilidade de ganhar 20%, a lucratividade dobra e, por isso, eu te digo que tenho visto gente saindo da formalidade para a informalidade.

A migração de empresários para a informalidade é significativa?
Eu conheço pelo menos dois casos. Afora, quem sai das universidades, dos cursos de gastronomia, e vai direto para a informalidade. E tem os casos de fechamento de estabelecimentos que tinham vários anos de tradição. Aqui em Natal, tem casos ocorrendo. Não posso dar nomes, por um questão de ética. Mas tem gente saindo da formalidade para a informalidade. Um associado nosso, que era informal e se legalizou, voltou para as ruas e em 15 dias estava comemorando que tinha lucrado mais que nos seis meses que passou formalizado. E tem ainda a captação da mão de obra. Tem churrasquinho em canteiros tirando profissionais de restaurantes estabelecidos. Isso tudo influi, de forma bem negativa, em nosso setor.

Como evitar isso?
Com fiscalização. É como te digo. Não queremos privilégios, beneficios, regime especial. Queremos paridade, igualdade de condições. E que essa igualdade seja para todos. Veja, agora mesmo nós estamos brigando porque padaria tem benefícios que a gente não tem, hotéis tem benefícios que não temos. Porque a gente não tem? Porque padaria, que é considerada indústria, tem redução de taxa. Hotel tem subsídio para energia elétrica. Porque a gente também não tem? Há uma inconsistência jurídica generalizada. Veja o caso dos 10% dos garçons. Não há nenhuma possibilidade – cobrar, não cobrar, repassar integralmente ou não – que o empresário possa adotar e ficar 100% tranqüilo juridicamente. O caso da nova lei do fumo é outro exemplo. No ambiente fechado, tudo bem. Mas, se eu tenho uma área aberta, porque não deixar a decisão para o cliente? É um serviço que preciso oferecer para quem quer fumar e está consumindo um produto lícito.

Você fala em crise, em casas sendo fechadas, mas tem novos estabelecimentos abrindo. Semana passada chegou o Outback, o grupo do Mangai está investindo em um novo restaurante, o Pizza Hut no aeroporto … 
Sim claro! Mas, nós não estamos vivendo uma expansão. Há vários anos que nos falamos que abrem, todos os anos, 10 mil novas casas no Brasil, mas fecham o mesmo numero. E o Rio Grande Norte acompanha essa tendência. Pense bem: quais as casas aqui que tem mais de 30 anos de funcionamento? São poucos. Você conta nos dedos. Agora, quantos abrem e fecham abrem, e fecham? São muitos. A nossa taxa de mortalidade é a mesma do Brasil: 80% dos novos fecham nos primeiros cinco anos. Basicamente, por falta de preparo. Tem muita gente que abre um negócio sem saber porque e como abrir. Falta planejamento. No nosso setor, tem gente que sabe cozinhar bem e abre um restaurante. Mas, quem tem que abrir um restaurante é um empreendedor. Ele contrata o bom cozinheiro.

Mas, o setor ainda comporta novos negócios?
Claro! Sempre haverá espaço para novos negócios. Várias coisas podem ocorrer. Uma empresa tradicional pode ter uma sucessão desastrosa e fechar, abrindo espaço no mercado. Dentro das cidades, ocorrem migrações. Em Natal, há 20 anos, o pólo para o setor era a praia do Meio e praia dos Artistas. Hoje, o pólo é Ponta Negra e a Roberto Freire, mas tem um pólo forte surgindo em Candelária, tem outro na Cidade Verde. E tem as novas oportunidades, a busca pela novidade. Precisa ter cuidado porque tem gente que quando vê a novidade, ela já acabou. Tem novidades que são onda mesmo. E outras que entram no mercado para ficar. Então, é o que digo: depende da boa administração, do senso de oportunidade, do planejamento, do produto que ele vai oferecer. Hoje, o consumidor não aceita qualquer coisa. Antes, você ia comer fora por necessidade, porque a empregada faltou ou outra coisa. Hoje, não! As pessoas buscam qualidade, elas querem alternativas. Elas já comem fora todos os dias, então elas querem qualidade, novidade, serviços. O mercado está cada vez mais duro, mais difícil. Essa competitividade vai fortalecer o setor.

Tribuna do Norte

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